A Tirania da Exceção e o Cemitério de Planilhas

14/12/2025 08:30 - Por Eduardo Montenegro

Por que a complexidade vence quando a disciplina falha?

Todos nós queremos processos simples. Sonhamos com a fluidez onde as coisas "simplesmente funcionam". Mas, na prática do dia a dia empresarial, existe uma força gravitacional que nos puxa sempre para a complexidade. E o mais curioso? Muitas vezes, nós criamos essa complexidade não porque o processo exige, mas porque as pessoas não cumprem o básico.

Quando a exceção vira a regra (O Custo da Desconfiança)

Imagine uma regra simples: "Apague a luz ao sair". É eficiente, barato e lógico. Mas, basta que dois ou três funcionários esqueçam a luz acesa repetidamente para que a solução deixe de ser educacional e vire sistêmica.

De repente, instala-se um sensor de presença (custo financeiro) ou cria-se um formulário de checklist de saída (custo burocrático). Criamos uma "regra de ferro" e um sistema de controle para 100% das pessoas, apenas para garantir que aqueles 5% de exceção não ocorra.

A reflexão é: Quanto do seu sistema de gestão ou das suas normas internas existe apenas para policiar quem não tem disciplina? Estamos engessando a operação da empresa inteira, punindo os competentes com burocracia, apenas para cercar os indisciplinados. A exceção virou a regra, e a leveza do processo morreu no caminho.

A Planilha que resolve (mas ninguém usa)

Do outro lado da moeda, temos a ferramenta simples. Muitas vezes, uma planilha compartilhada resolveria 90% dos problemas de controle de estoque de uma pequena empresa ou o fluxo de visitas de vendas. Não é necessário um sistema de milhares de reais; uma planilha bem-feita basta.

Mas a planilha falha. Não porque o programa de planilhas (Excel, Sheets, etc.) é ruim, mas porque ela exige um comportamento ativo: abrir, digitar, salvar. E quando a equipe não tem a disciplina de preencher a planilha, o gestor tira a conclusão errada: "A planilha não funciona, precisamos de um software que obrigue o preenchimento".

Voltamos ao ciclo vicioso. Implementa-se um sistema travado, com campos obrigatórios que impedem o funcionário de avançar se não preencher. O controle é garantido? Sim. Mas a agilidade foi destruída. Trocamos a cultura da responsabilidade pela cultura da "trava sistêmica".

O Dilema da Pequena Empresa (Recursos Escassos)

Para a pequena empresa, isso é uma armadilha cruel. Grandes corporações podem se dar ao luxo de ter departamentos inteiros de Compliance ou contratar treinamentos constantes para reforçar a cultura. O pequeno empresário não tem esse tempo e nem esse orçamento.

O recurso mais escasso na pequena empresa é a atenção do dono.

Se ele investe tempo treinando e conscientizando (o caminho da simplicidade), ele deixa de vender ou operar. Se ele investe em sistemas rígidos e travas (o caminho da complexidade), ele cria uma burocracia que a empresa não suporta, tornando tudo lento e caro.

É uma escolha de Sofia: ou o risco da liberdade indisciplinada ou a segurança da burocracia lenta.

Conclusão: A busca pelo Caminho do Meio

Não existe solução mágica, mas existe o diagnóstico correto. Antes de comprar mais um módulo de sistema ou criar mais uma norma rígida, pergunte-se: "Estou criando essa complexidade para resolver um problema real do negócio ou para corrigir um problema de comportamento de uma minoria?"

Às vezes, a regra rígida é inevitável. Mas, muitas vezes, o que falta não é software, é conversa. E, embora a conversa seja cansativa e exija repetição, ela é a única coisa que constrói uma cultura onde a simplicidade pode sobreviver.
Eduardo Montenegro

Eduardo Montenegro

Especialista em tecnologia da informação