Geração Z e o PC: Um Choque Cultural

21/11/2025 07:15 - Por Eduardo Montenegro

Nativos Digitais vs. Realidade Desktop: Por que a nova geração "trava" na frente do PC?

Há um paradoxo silencioso acontecendo nos escritórios e departamentos de TI ao redor do mundo. Contratamos jovens da Geração Z assumindo que, por terem nascido com um tablet na mão, eles são inerentemente "fluentes" em tecnologia.

A realidade, no entanto, tem se mostrado um balde de água fria: eles são mestres no consumo e na intuição de apps, mas, muitas vezes, "analfabetos funcionais" quando o assunto é a computação de produtividade clássica.

Se no debate "IA como Pair Programming vs. Vibe Coding" discutimos a estruturação do código versus a intuição, aqui o buraco é mais embaixo: estamos falando da incompreensão fundamental de como um computador organiza a informação.

O Mito do "Nativo Digital"

A minha geração (e as anteriores) aprendeu a usar computadores na base da tentativa e erro, lidando com o MS-DOS ou o Windows 95. Para instalar um jogo, você precisava entender o que era um diretório, um executável (.exe) e onde os arquivos precisavam ser salvos. A estrutura hierárquica de pastas não era uma escolha; era a única forma de operar a máquina.

A geração atual cresceu em um paradigma de Abstração Total.

No iOS ou Android, o conceito de "arquivo" é irrelevante. Você não salva uma foto em /home/user/imagens/ferias. Você simplesmente tira a foto e ela "está lá" no app de Fotos. Se você quer abrir um documento, você não navega até a pasta dele; você abre o Word e o documento aparece na lista de recentes.

A Síndrome do "Cesto de Roupa Suja"

Professores de engenharia e ciência da computação relataram recentemente um fenômeno curioso: alunos que não sabem salvar seus projetos em pastas específicas.

Para esses jovens, o armazenamento do computador é visto como um gigantesco "cesto de roupa suja" (um balde único). Eles jogam tudo lá dentro e, quando precisam de algo, confiam cegamente na barra de busca (Spotlight, Windows Search).

O problema é que, no ambiente corporativo de alta produtividade, a busca não escala.

  • Como você versiona arquivos se não entende diretórios?
  • Como você organiza um projeto compartilhado na rede se não entende o conceito de caminho (path)?
  • Como você descompacta um .zip e move o conteúdo para uma pasta de sistema se você nunca viu uma estrutura de árvore?

O Choque de Produtividade

Quando esse profissional entra no mercado de trabalho, o choque é imediato. O PC de trabalho (seja Windows, Mac ou Linux) exige uma lógica hierárquica.

Tenho observado seniores gastando horas preciosas não revisando código ou estratégia, mas ensinando atalhos de teclado básicos (Alt+Tab, Ctrl+C/V reais, não toques na tela), como gerenciar janelas lado a lado e, pasme, como encontrar o arquivo que acabaram de baixar e que "sumiu" (foi para a pasta Downloads, mas eles esperavam que o arquivo abrisse magicamente no app correspondente).

Isso gera frustração de ambos os lados:

  1. O Sênior acha que o Junior é desinteressado ou "lento". (Me incluo neste grupo, o que me fez refletir sobre este assunto)
  2. O Junior sente que está operando uma máquina arcaica e desnecessariamente complexa.

Vibe Coding no PC? Não funciona.

Voltando à analogia do "Vibe Coding": você pode programar ou criar conteúdo "na vibe" usando ferramentas low-code ou tablets, mas a engenharia pesada, a advocacia, a contabilidade e a gestão corporativa ainda rodam sobre arquivos, pastas e hierarquias.

Não é culpa da nova geração. O design de UX moderno teve tanto sucesso em simplificar a vida que removeu a necessidade de entender como a máquina funciona. Porém, para trabalhar com a máquina, esse entendimento volta a ser crucial.

A Solução? Parar de assumir que "jovem = expert em TI".

Precisamos voltar a incluir o "Básico de Computação" no onboarding. Ensinar gestão de arquivos não é ofensa, é nivelamento técnico necessário para que a "vibe" deles possa, finalmente, se traduzir em produtividade real.
Eduardo Montenegro

Eduardo Montenegro

Especialista em tecnologia da informação